BADWATER - Correndo pelo Vale da Morte.

Data da postagem:

BADWATER - Correndo pelo Vale da Morte.

DATA DA POSTAGEM: 15/07/2020

Uma das minhas inspirações para iniciar no mundo das ultramaratonas foi o livro chamado “O Ultramaratonista” do corredor norte-americano Dean Karnazes. Nele havia o relato de uma prova, considerada a mais difícil do mundo, chamada Badwater.

Karnazes contou com detalhes a sua primeira participação, os problemas com o calor, bolhas nos pés, hidratação, equipe de apoio, entre outras curiosidades. Mas dois detalhes me chamaram muita atenção: a distância que deveria ser percorrida (135 milhas - 217 quilômetros) e a dificuldade para se conseguir uma vaga entre os participantes.

O ano era 2007, estava com 27 anos e até então nunca havia corrido mais do que uma Maratona oficial de 42.195 metros. O desejo de ingressar neste mundo das longas distâncias apareceu de repente, como uma vontade de superar meus próprios limites e aquele foi o estopim. A meta seria participar daquela mítica competição.

Para tanto, precisaria percorrer um longo caminho, pois como disse, são muitos critérios para que o atleta seja aceito e convidado pela organização à participar. Procurei então na internet provas de ultramaratonas no Brasil. Hoje parece uma tarefa extremamente fácil, porém, naquela época o calendário não apresentava muitas opções. Vi que tinham algumas provas de 24 horas em pista de atletismo e uma outra de 100 quilômetros em Cubatão/SP. Sinceramente não estava preparado para correr um dia inteiro em volta de uma pista de atletismo e a de Cubatão não me encantou.

Consegui encontrar outra prova na Argentina, numa cidadezinha chamada San Miguel del Monte, próxima a capital Buenos Aires. Vi algumas fotos e me encantei pelo lugar. Solicitei algumas informações à organização e fui muito bem atendido. Pronto, juntou a fome com a vontade de comer. Viajar, conhecer belas paisagens e poder correr 100K.

Obtive um bom resultado e conheci dois atletas brasileiros que me falaram sobre a Brazil 135, ultramaratona de 135 milhas (217K) que aconteceria quatro meses depois percorrendo a Serra da Mantiqueira, entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. No retorno ao Brasil resolvi me inscrever e fui aceito. Melhor ainda, soube que aquela prova era uma seletiva para a Badwater.

Minha primeira participação foi em Janeiro de 2008 e infelizmente não consegui concluir. Acredito que este efeito do fracasso obtido fez com que me apaixonasse ainda 

mais pelo esporte. Ali entendi com clareza que não bastava ser jovem e forte, deveria ter o espírito guerreiro e saber, mais do que tudo, controlar a mente.

Não desisti, participei de uma prova de 24 horas em pista, viajei para África do Sul e corri a ultra mais famosa do mundo (Comrades), voltei para a San Miguel del Monte, fiz a Maratona de Curitiba, entre outra provas menores e um ano depois, em 2009, obtive êxito na Brazil 135 chegando entre os 10 melhores colocados. Com isso conquistei o convite da organização da Badwater para estar presente na largada daquele ano.

Vendido o projeto de patrocínio para empresas parceiras e organizada a equipe de apoio, viajamos rumo a Las Vegas. Ao sair do aeroporto já senti o que me esperava, a temperatura marcava 45 graus Celsius. Estava “fresquinho”, pois no Vale da Morte onde ocorre a Badwater, a temperatura atinge facilmente os 55 graus.

Ficamos três dias em Las Vegas e aproveitamos para nos adaptarmos às condições de calor e baixa umidade. Este último fator ainda mais impactante, pois ao tentar respirar com o calor extremo e a baixa umidade, o nariz chegava a sangrar e a garganta ressacava de tal forma que não conseguia engolir ou respirar.

Mais dois dias em Furnace Creek, base da organização e local próximo a largada, entendi o porquê do nome Badwater (água ruim). Como estávamos abaixo do nível do mar (Badwater Basin, ponto mais baixo das Américas), tudo se transformou em sal. Com a estrada construída para que pudéssemos estar naquele local, criou-se a mistura perfeita para o calor extremo, misturando asfalto, sal e um pouco de areia com pedras.

Precisava me concentrar na prova, afinal de contas seriam 217 quilômetros naquelas condições, o maior desafio da minha vida até então. No dia anterior a largada revisamos os equipamentos obrigatórios, entre eles, coletes sinalizadores, protetor solar fator 100, roupas refletivas, muitos litros de água, suplementos alimentares, luzes noturnas, etc. Arrumamos nosso carro de apoio e fomos para o Congresso Técnico ouvir o Diretor Geral Chris Kostman e também os Rangers, guardas nacionais americanos. Passadas as instruções de segurança, retiramos o kit, fizemos a foto oficial e retornamos ao hotel descansar, teríamos uma longa batalha pela frente.

A largada é dividida em ondas com aproximadamente 30 atletas cada. Larguei na segunda onda, 08 horas da manhã e com temperaturas já próximas de 50 graus. Estabeleci um ritmo constante e procurei curtir ao máximo cada passo. Passamos no primeiro check point (28K) em exatas 3 horas, até ali me sentia confortável. O segundo ponto de referência seria 44 quilômetros mais a frente, num posto de gasolina em Stove Pipe Wells. Consegui manter o ritmo, porém o sol começou a castigar de uma maneira que ao chegar na base, minha frequência cardíaca sentado passava de 150 batimentos por minuto. Eram 16h e não conseguia me levantar da cadeira de tão fraco que estava.

A equipe estava muito bem preparada. Rapidamente pegaram as toalhas brancas, baldes com gelo e evitaram que entrasse numa hipertermia mais grave. Fui me reestabelecendo aos poucos e no final da tarde voltamos para a pista. O desempenho já não era mais o mesmo. Não conseguia mais correr, somente caminhar e devagar, pois se aumentasse a velocidade minha temperatura corporal subia demais e passava mal, vomitando ou ficando tonto demais para continuar. Mesmo assim me arrastei até o terceiro check point em Panamint Springs (92K).

Lá resolvemos parar e deixar o corpo recuperar de forma adequada ou correríamos o risco de não finalizar a prova. Tudo aquilo que o Dean Karnazes tinha dito no livro estava acontecendo. Por incrível que pareça estava muito feliz com aquela situação, estava vivendo a história e o melhor, o próprio Dean estava correndo, não poderia ser melhor!

Dormi algumas horas e no meio da madrugada retornei lentamente, mas com o descanso e a temperatura mais amena fui me sentindo forte e confiante e consegui voltar a correr relativamente bem. O sol nasceu e o deserto estava simplesmente maravilhoso. Paisagens incríveis e locais onde nunca imaginei estar. Entrei numa vibração que quando “acordei” já estava próximo de correr 100 milhas ou 160 quilômetros. A concentração foi tanta que cometi um erro e não percebi que estava correndo pelo asfalto quente e não sobre a linha branca que demarcava a estrada. Com isso a sola do meu pé fez uma bolha gigante. A solução foi parar, recortar e colar a pele novamente na sola do pé com cola super bonder. Pode parecer estranho, mas já havia lido relatos de outros atletas que tinham passado por esta situação e por precaução levei a cola nos meus materiais de apoio. Não é que funcionou? Colamos o pé e pude continuar em busca da meta.

Agora faltava pouco mais de 50 quilômetros até a chegada, no portal do Mount Whitney localizado na cidade de Lone Pine, Califórnia. Anoiteceu novamente e conseguia ver as luzes distantes, aquilo animava a não desistir e continuar. Uma ou duas horas depois a paisagem mudou de forma drástica. Agora além das luzes, avistava também um fogo alto na montanha e carros de bombeiro. Como ainda estava há mais de 30 quilômetros de distância não entendia muito bem o que estava acontecendo. No deserto as retas são longas e conseguimos enxergar por horas a mesma paisagem.

Quando nos aproximamos da cidade um dos bombeiros veio até nós e avisou que estava acontecendo um incêndio no parque e que deveríamos tomar cuidado naquela estrada de acesso ao Mount Whitney principalmente com ursos, pois estavam fugindo para áreas mais seguras e poderiam cruzar nosso caminho, ou nós o deles, o que seria extremamente perigoso.

Na alça de entrada, faltando apenas 9,6 quilômetros para chegada foi a vez de um dos organizadores nos parar e avisar que nosso final não seria mais no portal e sim numa chegada improvisada em algum ponto da subida.

A motivação já estava grande e logo ao iniciar a subida final encontro com meu querido amigo Jarom Thurston, com quem tive a oportunidade de participar da Brazil 135. Ele havia largado na onda das 6h da manhã e estava exausto. Oferecemos alguns alimentos e água, esperei por alguns instantes ao seu lado e resolvemos finalizar juntos. Foi uma incrível experiência de superação, pois já estávamos os dois no limites de nossas forças.

Após 42 horas de prova consegui completar a Badwater ao lado de minha equipe e da equipe do Jarom, conquistando a fivela de honra para aqueles atletas que conseguem finalizar o desafio abaixo das 48 horas. A felicidade foi ainda mais completa quando soube que um brasileiro havia sido o campeão geral, Marco Farinazzo do exército brasileiro.

A história com a Badwater não termina aqui, em 2016 tive a oportunidade de retornar, mas infelizmente tive uma lesão no joelho e não finalizei. Por fim, em 2020 estava novamente classificado, mas desta vez a pandemia de corona vírus e um terremoto cancelaram a prova pela primeira vez na história.

Ano que vem tem mais, se Deus permitir.

Treinador Raphael Bonatto – Go On Outdoor – Brasil